(Navegar é preciso, voar também é...)
Quando comecei a participar do ORKUT fui convidada pela amiga Sol para uma comunidade sobre poesia, a Sociedade dos Pássaros-poetas. Lá, todos os participantes deviam escolher um pássaro para associar ao seu nome e as postagens deveriam ser poemas de sua autoria ou de poetas já conhecidos, ou não. Encontrei nesse site pessoas que revelavam uma grande sensibilidade e maestria ao escrever, e outros que como eu, tentavam jogar algumas palavras ao vento, voar como pássaro-poeta.
Na época participei um pouco, mas como eu não sei fazer poesia, não fui em frente... No entanto, foi lá que encontrei minha metáfora, ser martim-pescador. De lá pra cá, fui me descobrindo...
Uma vez disse Rubem Alves,"ainda bem que há os poetas, que salvam os nossos olhos da mesmice. Os poetas são os mestres da arte de ver, que se dedicam a abrir os olhos dos cegos.” E eu digo, ainda bem que há os pássaros-poetas, eles salvam o nosso olhar das coisas fúteis que ofuscam o espaço virtual. Seu canto feito em bandos encanta a nossa alma e nos faz lembrar de nossa verdadeira identidade.
))§((
Ao assumir a insígnia da comunidade escolhi o pássaro Martim-pescador (kingfisher), porque me achei até bem parecido com ele, que não voa muito...
O Martim é comum em beira de rios, lagos, lagunas, manguezais e beira-mar, em todo o Brasil e também no sul dos Estados Unidos, no México e em toda a América do Sul. Ele passa a maior parte do tempo pousado sobre pedras e árvores mortas, observando a água. Ao avistar um peixe, mergulha diretamente em sua direção. Executa migrações locais na Amazônia, aparentemente devido à dificuldade de pescar em águas turvas - o que ocorre durante e após as chuvas - ou em águas onduladas e encrespadas. Em períodos de águas turvas, alimenta-se também de insetos.
))§((
Photo by Lisa Sam67: original e outras
Eu também não sei voar como poeta. Em mim, as palavras não fluem como o vôo majestoso dos pássaros sagrados e consagrados do cosmos virtual. Não sei atirar versos linha abaixo revelando os muitos mundos, como fazem certos bichos voadores. Sou Martim, sou pescador. Vivo solitária sobre a pedra e olho pro rio. Procuro meu alimento que está a navegar por essas águas. Quando vejo o peixe-poema mergulho diretamente em sua direção. Mastigo-o e deglutindo seus pedaços sacio a minha fome. Se as águas estão turvas pelas cores, executo a migração, pego o peixe-imagem. Palavras ou imagens, vou metabolizando-as, uma a uma e incorporo-as em meu ser.
Na época fiz um
Lamento
No imobilismo de meu corpo sobre a pedra
o olhar navega sobre o fluxo das águas.
Os poemas saltitantes mostram-se e mergulham novamente
num correr sem fim.
A ânsia por devorá-los obriga-me a persegui-los até capturá-los.
As palavras deglutidas, incorporadas,
fazem de mim
um corpo denso
que resiste ao vôo.
Sinto o peso da metáfora que criei.
Martim-pescador
)) §((
Hoje, tempos depois, ao metabolizar as palavras e as imagens, estou aprendendo a devolvê-las ao ambiente na forma de um canto, um canto muito breve, o
canto dos haikais...
))§((